segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Entre raizes e asas

Chegando ou voltando? O motorista do Uber perguntou assim que acomodei as malas e entrei.


- Voltando.

Não moro mais aqui.
Mas é minha casa.

Tudo mudou.
E, ao mesmo tempo, nada mudou.

O cheiro que me acolhe antes mesmo de abrir a porta, que me lembra de quem eu fui e de quem sou continua o mesmo.
A rotina segue familiar, mas cada canto carrega ecos do que passou e sussurra lembranças que só eu consigo ouvir.
Quem me recebe, os mesmos — mas sinto nas pequenas coisas que o tempo também os mudou.
Só o cachorro que late de felicidade na porta de entrada mudou, infelizmente.

Fiz meu lar em muitos lugares. Mas aqui sempre será.
Não pelas paredes, não pelos móveis, não pela vizinhança.
Mas pelo abraço que não precisa de palavras.
Pelo olhar que reconhece quem eu sou, mesmo quando eu não consigo.
Pelo silêncio compartilhado que, de tão cheio de presença, se torna conforto.
Pelas pessoas que estão, e sempre estiveram.

Esse medo suave de ir embora misturado à certeza silenciosa de que se tem um Porto Seguro é o que fez eu (e meus irmãos) me lançar pelo mundo, porque sei que tenho casa.
Não a casa física, mas a casa emocional.
Aquela que te segura quando tudo parece incerto.
Aquela que te dá coragem para arriscar, tropeçar, levantar e seguir.

Essa casa emocional é a mais difícil de construir.
A mais difícil de manter.
A mais difícil de ser.
E, ainda assim, é de lá que vem minha força.
Do amor, as vezes silencioso, em atos, as vezes falado com carinho e certeza.
Da presença constante, no perto e no longe.

Do lar que existe sem precisar de paredes, móveis ou portas, apenas pela gente que é, e sempre será, meu abrigo.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Fantasma

 Meses depois o canto da minha cama tá completo com a sua presença de novo.

Cheiroso e suado, descabelado e lindo, sereno e selvagem, me causando uma dicotomia desesperadora de expectativas que só a minha própria cabeça poderia criar.

Vivendo o cruel abismo entre o querer e a indiferença que a casualidade imprime no meu peito, questiono, como alguém que me devora com tamanha vontade consegue acordar e ir embora sem me devotar certezas, em palavras ou gestos?

A manhã chega e, como um fantasma, você some pela porta sem olhar pra atrás, deixando seu cheiro no travesseiro e o canto da minha cama vazio, incompleto, caótico e bagunçado, igual ao meu coração, sem saber quando será nosso próximo encontro.

Sinto urgência de futuro, mas nem a melhor taróloga conseguiria decifrar, entre cartas, búzios ou signos o desenrolar da nossa história, de tantos encontros e desencontros.

O pedido à próxima estrela cadente que cortar o céu já está decidido, carregando silenciosamente o desejo de que você me habite com a mesma voracidade que eu te sinto.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Câncer com ascendente em virgem

Me preparei pra te ver cheia de planos, pensando em cada detalhe, em cada palavra pra te falar e me perdi toda no nosso primeiro abraço.

Apertado.

Caloroso.

Cheio de saudades.

Seguido de um olhar profundo que me rasga inteira e derruba qualquer possibilidade de dúvida de que, não só ainda existe algo, como é algo grande.

Te pego me olhando e meu coração bate forte, você me encosta e meu corpo treme, sinto arrepios com seu cheiro, sua presença me leva pra outra realidade, não vejo mais nada, só você me importa.

Não paro de pensar em nós.

Mas você não quer ficar só comigo e eu não quero te dividir com mais ninguém.

Você vira a minha cabeça e me tem na mão, queria eu comandar tudo e te roubar pra mim.

Será que tudo que a gente viveu ficou no passado e agora já não faz mais sentido?

Perguntei se você ia pensar na gente, agora que eu to de volta, você olhou pro quadro na parede da minha sala, que já veio com a decoração da casa, e falou:

- Você entende esse quadro?

Respondi que não, meio sem paciência e sem olhar pra ele. Não queria metáforas, queria respostas diretas, mas você continuou:

- pois é, nem eu, e é assim que eu me sinto em relação a gente…

segunda-feira, 24 de junho de 2024

O garoto que dá sorte

No primeiro segundo em que trocamos olhares naquele backstage, algo diferente bateu. De repente, entramos numa competição de quem conquistaria o outro sendo mais engraçado, e nunca mais paramos.

— Onde você tava? — perguntou o Luccas Carlos, enquanto eu perdia a noção da hora rindo das suas gracinhas. Era o sol nascendo de um lado, e o riso com flerte do outro.

Antes mesmo de nos despedirmos, eu já torcia para minha simpatia esbarrar na sua extroversão mais vezes.

E esbarraram.

As paredes dos hotéis guardam nossos sorrisos. As camas perderam a conta de quantas vezes eu perdi o ar com você. Os pisos conhecem bem nossas roupas jogadas, e os alarmes de fumaça você dribla como ninguém.

Como duas pessoas que não convivem diariamente se entendem pelo olhar? Me pergunto toda vez que estamos juntos.

Você é lindo, por dentro, por fora, do avesso. Original, no estilo, nos cabelos, na paquera.

Com uma presença marcante, é impossível não te ver. Seu brilho é único, no palco, na pista, no quarto de hotel, no boteco com mesa de plástico, na balada de boy ou na tv. 

Esperto. Rápido nas palavras, demorado nos carinhos.

Toda vez que você sussurra baixinho no meu ouvido “que sorte eu tenho”, eu te olho fixamente, pronta pra te engolir.

No nosso último encontro, você disse que eu fiquei linda com a sua camisa do Flamengo. Eu respondi: se morássemos na mesma cidade, te promoveria a meu namorado.

Acho que as duas verdades têm pesos iguais.

Você não é meu. Mas bem que podia querer ser.

sábado, 16 de março de 2024

Ele voltou

Depois de muitos anos a gente se viu.

Ele mesmo, o dono de metade das cartas de amor desse blog.

Ele, o homem de caráter duvidoso, que roubou meu coração em 2013 e levou um pedacinho com ele pelo mundo.

Ele, o homem que minha irmã desaprova. Que minhas amigas reviram os olhos ao ouvir o nome. Que se me perguntarem três qualidades eu nem sei dizer.

Ele, que me tirou o sono só com uma troca de olhares às 3h da manhã no meio de um rolé de qualidade duvidosa.

Eu te vi, você me viu. Eu tava acompanhada, você também.

Meu coração acelerou, fiquei desconcertada, sem reação, mesmo já vindo me preparando há dias pra possibilidade desse reencontro.

Não fui falar com você, não sabia o que falar, achei que você não ia me causar mais nada depois de tantos anos longe - errei.

Eu minto pros outros e, principalmente, pra mim, que nós somos só amigos, mas ficou claro que ainda tem alguma coisa aqui dentro.

Inexplicável sensação de saudade, com medo do desconhecido, vontade de abraçar e de correr pra longe, na mesma medida.

Torço por um encontro só nosso.

Eu mereço.

Você merece.

Nossa história merece.


quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Pecado íntimo

De longe te quero perto, de perto te quero dentro, rodei o mundo e caí na tua rede outra vez.

Tu me vira do avesso e continua sendo do jeito que eu gosto. Teu olhar, naturalmente sério, é o mais sexy que eu já vi, teu beijo me devora, tuas mãos me comandam. 

Essa cara de quem não pede, manda, me enche de vontade de mergulhar, até perder o ar, entre seus dedos. 

Tu me invade com toques selvagens e me ama sem pudor, de um jeito que mais ninguém faz, passo dias sentindo nosso encontro gravado na pele, literalmente.

Desejo e perigo.

Esses dias a vontade de ser sua me rasgou sem dó em uma simples terça a tarde, sem a menor chance de realização. 

Medo e delírio.

Motivada por lembranças das cenas quentes já protagonizadas por nossos olhares cheios de vontade do outro, eu te queria mais uma vez, e mais uma, e mais uma, em sequência, na frequência que faz minhas pernas tremerem e o fôlego sumir.

Desde que minhas roupas se misturaram aos grãos de areia, em uma indecência intensa, sincera e profana, meu gemido se perdeu no sigilo e quer ecoar pela sua casa todo o dia.

Ficar presa no seu quarto, me queimando em tu, é a liberdade que eu queria pra hoje.

Amor marginal.

Coração bandoleiro.

Paixão aperriante.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Me reencontrei

(ler ao som de Gal Costa - O que é que há)

Nós últimos anos eu tava perdida, pessoalmente, profissional, amorosamente, e todos os "entes" possíveis no final das palavras.

Nada me preenchia, nada me agradava, me sentia vivendo no automático, não me encaixava em mais nenhum grupo de amigos, nem nas festas, nem nas conversas. Vivia com uma certeza gritando no fundo da minha alma: essa não é a vida que eu quero.

De repente um mundo de abriu, eu abri meu mundo.

Em meio a uma vila, com chão de areia, sotaques diversos, pessoas de todos os cantos, um marzão cheio de marolinha e uma prancha de longboard, eu me encontrei. Feliz, vivendo, experimentando, conhecendo e sendo.

Nunca me senti tão dona da minha vida, das minhas escolhas, das minhas responsabilidades, do meu caminhar nesse mundo.

É aqui, é assim - eu pensava.

Meu coração se enchia de possibilidades todo dia, de vontades, de perguntas e respostas.

A saudade e as lembranças de casa me puxavam pro mundo que não é mais real pra mim, muitas vezes, e mais uma vez eu me completava de felicidade, sabendo que esse sonho só tava sendo possível por ter bases familiares muito fortes e seguras e, de repente, tudo que eu vivi até chegar aqui fez todo o sentido.

Já tava no meu caminho todas as vivências, encontros, trocas e conexões.

Nem tudo são flores, nem tudo é perfeito, mas eu me propus, planejei e fui ser adulta, do melhor jeito que eu acho que dá pra ser agora: vivendo há apenas alguns passos do mar, em contato direto com a natureza, fugindo de trânsito, de transporte público e de cidade grande.

A paz que eu tanto procurava me encontrou, e a gente têm se dado muito bem, as pessoas falam que eu tô mais brilhante, mais solar, mais alto astral, mais solta, e eu concordo.

Hoje eu acordei 5h da manhã e fui ver o sol nascer na praia atrás da minha casa, só tinha eu, o mar, a areia, um arco-íris no céu e a Gal costa cantando no fone.

Escorreu uma lágrima de satisfação, que delícia viver!