segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Entre raizes e asas

Chegando ou voltando? O motorista do Uber perguntou assim que acomodei as malas e entrei.


- Voltando.

Não moro mais aqui.
Mas é minha casa.

Tudo mudou.
E, ao mesmo tempo, nada mudou.

O cheiro que me acolhe antes mesmo de abrir a porta, que me lembra de quem eu fui e de quem sou continua o mesmo.
A rotina segue familiar, mas cada canto carrega ecos do que passou e sussurra lembranças que só eu consigo ouvir.
Quem me recebe, os mesmos — mas sinto nas pequenas coisas que o tempo também os mudou.
Só o cachorro que late de felicidade na porta de entrada mudou, infelizmente.

Fiz meu lar em muitos lugares. Mas aqui sempre será.
Não pelas paredes, não pelos móveis, não pela vizinhança.
Mas pelo abraço que não precisa de palavras.
Pelo olhar que reconhece quem eu sou, mesmo quando eu não consigo.
Pelo silêncio compartilhado que, de tão cheio de presença, se torna conforto.
Pelas pessoas que estão, e sempre estiveram.

Esse medo suave de ir embora misturado à certeza silenciosa de que se tem um Porto Seguro é o que fez eu (e meus irmãos) me lançar pelo mundo, porque sei que tenho casa.
Não a casa física, mas a casa emocional.
Aquela que te segura quando tudo parece incerto.
Aquela que te dá coragem para arriscar, tropeçar, levantar e seguir.

Essa casa emocional é a mais difícil de construir.
A mais difícil de manter.
A mais difícil de ser.
E, ainda assim, é de lá que vem minha força.
Do amor, as vezes silencioso, em atos, as vezes falado com carinho e certeza.
Da presença constante, no perto e no longe.

Do lar que existe sem precisar de paredes, móveis ou portas, apenas pela gente que é, e sempre será, meu abrigo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário